ADEUS ÀS ARMAS
Júlio Cesar Montenegro
Vamos votar pró ou contra ter armas. Por conta disso cada vez mais vamos ler/ouvir histórias, nem sempre inventadas, que serão escolhidas conforme o contador delas queira atacar ou defender o desarmamento. Um pai desesperado vendo a filha ser estrupada em casa pelo assaltante, pedindo inultilmente socorro aos vizinhos desarmados. Outro pai que tinha arma em casa e morreu por causa do filho criança ter encontrado e brincado com o artefato.
Aqui quero partir de uma constatação: mesmo sendo racionais às vezes, nunca deixamos de ser animais. Como tais, instintivamente, estamos sempre prontos a lutar pela sobrevivência, tanto a nossa em particular como da espécie humana em geral.
Quem convive com animais irracionais pode observar essas lutas, principalmente entre machos da mesma espécie. São refregas em que geralmente os contendores usam o barulho (berros, uivos, latidos) e o aumento de volume do corpo (gatos eriçam os pelos, galos as penas) para intimidar o oponente. Quase sempre a briga termina quando um dos dois se afasta, cede o lugar.
Quando usávamos apenas nossos grunhidos, músculos, unhas e dentes, devíamos proceder de maneira parecida. Mas nossos antepassados foram aprendendo a usar paus e pedras; descobriram como manter o fogo. E as brigas foram esquentando e permitindo que o mais fraco fisicamente não só afastasse como matasse o mais forte desarmado.
Nietzsche, em Crepúsculo dos Ídolos, filosofa assim: A luta pela vida termina sempre "ao contrário do que a escola de Darwin deseja, do que, talvez, seria lícito desejar com ela: ou seja, em desfavor dos fortes, dos privilegiados, das exceções felizes. As espécies não crescem em perfeição: os fracos se tornam sempre senhores de novo sobre os fortes - é que são em grande número e são sempre mais espertos... Darwin esqueceu o espírito (- isto é bem inglês!), os fracos têm mais espírito... É preciso necessitar de espírito para adquirir espírito - perde-o quem não necessita mais dele. Quem tem a força desembaraça-se do espírito".
Indo nessa linha, podemos imaginar os fisicamente mais fracos inventando as armas. E logo percebendo que elas podiam ser tomadas e usadas contra eles pelos mais fortes. Aplicando cada vez mais a experiência da inteligência, com uma ambição crescente, foram tentando criar novas proteções contra os adversários mais fortes: guardas pessoais, exércitos, polícias, crenças, religiões, justiças, regras, leis e armas cada vez mais letais.
E nessa caminhada a defesa logo foi substituida pelo ataque, "a melhor defesa", e a tentativa de domínio sem contestação. Atualmente estamos na situação em que um grupo de velhos fracos poderosos domina, com o artifício de mandamentos religiosos e leis democráticas que são os primeiros a burlar, um país que tem forças armadas com bombas pós-atômicas capazes de destruir não só quaisquer inimigos terroristas como a nossa bela mãe Terra.
Mas o espírito que nos levou a essa situação também nos leva a contestá-la. Uma ampla, talvez a maior, quantidade de humanos já percebeu que esse poder que as armas permitem concentrar não tem resolvido os problemas da maioria. Ao contrário só tem aumentado as possibilidades de humilhação, de exploração, de destruição. Como diría Lênin: O que fazer?
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